13.11.09

Sexta,Capital

Sociedades não se medem em termos absolutos, pela razão que há pessoas que são mais que uma unidade, são muitos em um. A dificuldade é que “muitos” não é um número e daí não se saber ao certo qual a diferença que uma pessoa, que é muitos em um, faz. Mas sente-se. O país está a meio-gás, não porque metade da população está de baixa, mas porque pessoas e projectos bem identificados estão de baixa. Não porque se abateram, mas porque fogem. Vão para onde supõem estar seguras e confortáveis. O país está a meio-gás porque tá furado aqui e ali.

Cancelam-se bienais, viagens, adiam-se projectos. Entretanto Raiz di Polon perfaz 19 anos, bonita idade, e oferecem um ensaio aberto hoje, em sua sede. Apareça quem quiser. Entretanto nós os de cá, que não fugimos, ou não temos onde fugir, ou não queremos fugir, aguentamos as pontas, suportando os mesmos asnos e contentando-se com as mesmas pessoas e natureza. De todo o modo fugir para onde? Para onde haja gripes A ou outras bizarrias feitas em laboratórios? Para palcos de guerra? Para países onde já não somos mais bem-vindos? Onde se cultiva a intolerância?

Ontem minha amiga dizia que, o mundo fatalmente entra em fases de estupidez generalizada, aumentando a tensão até limites do insuportável, rebentam-se guerras e conflitos, para depois retomar-se os caminhos da normalidade e razoabilidade. Pois parece-me que o mundo anda nesta fase da estupidez generalizada, com modelos económicos que já pareciam naturais a colapsarem, com mais e mais doenças a aparecer todos os anos, com as abismais diferenças entre países e pessoas, mas sobretudo com a falta de vontade de nos entendermos, cada um a querer fazer vingar a sua lógica, ou achando arrogantemente que a sua lógica é A lógica. Não há onde fugir. Lutemos. Vão à vossa sexta, bebam a cerveja de praxe, mas saibam que não é tempo de relaxar.

12.11.09

Quinta,Essência

Está tudo doido em torno, gente doente, com medo dessa doença nova odiosa, de outras que se vem juntando, de outras que já estavam e progridem, tais como os que matam de coração, de comilança, de gordura, de falta de higiene de vida. A cidade está sacudida. Costumávamos brincar que Deus é caboverdiano, face a perigos que nunca davam em nada, casas podres que não caiam, epidemias que espreitavam e não aconteciam, face a toda a casta de desleixo sem consequência. E agora, que epidemias acontecem, há mortes e centenas de doentes todos os dias, casas caem, a chuva, tradicionalmente amiga, leva na enxurrada uma vila inteira, turistas cancelam visitar aqui, empresas vão à falência, há mais famílias no desemprego, estrangeiros vêm nos ajudar, porque sós não aguentamos tanta fúria, será que Deus renunciou à sua nacionalidade caboverdiana? Deus cansa, né?

Mas apesar de, de facto, estar tudo doido, a maneira desse povo não mudou muito. Além de continuar a sujar, mijar na rua e gritar palavras de boca suja, o que continua mesmo permanente é esse estado de espírito, como se nada estivesse acontecendo e tudo fosse só mais alimento para piadas. A gente de S.Vicente diz que, agora na Praia, se não se morre de gang, morre-se de Dengue, na Praia dão alcunhas para o demónio, Sakudin, Feru-Gaita e nomes assim, na Boavista continuam a culpar os Badios de ir pra lá montar o inferno. Tudo é um pouco a brincar, do douto doutor ao povo ralé, todos brincam, até mesmo com o Diabo. É da nossa quintessência.

11.11.09

Quarta, Definições

mamata
(mamar + -ata)
  1. Empresa ou administração pública em que políticos e funcionários protegidos auferem lucros ilícitos.
  2. Exploração ou lucro que resulta de suborno ou tráfico de influências. = comilagem, ladroagem
  3. Pop. Negociata, roubo.
  4. Emprego lucrativo sem grande esforço. = conezia, mama, sinecura, teta, tribuneca, veniaga
  5. Ganho ou coisa pouco lícita. = expediente, marosca

marosca
(origem obscura)
Trapaça, arriosca.

arriosca
(origem controversa)
  1. Alguergue.
  2. Intriga.
  3. Logro.
  4. Falcatrua.
(Fonte: www.priberam.pt)

Palavras, até com uma dose de fofura, não faltam para denominar chico-espertice, negócios obscuros, transacções controversas, cálculos indevidos de remunerações próprias, beneficiação involuntária de próximos e parentes, macaquiça...

10.11.09

Terça, 1/3

Para os lados de Palmarejo, quem vem de Quebra-Canela, há batalhas aéreas de Marcianos pela madrugada, largam bombas que fazem buracos na estrada. Quem vem com o carro, livra um buraco e, tunfa!, apanha com outro mais ao lado. Uma irritação diária. Marcianos no ocorrido são de três espécies: o Calceteiro Preguiçoso, o Capataz Fanfarrão e o Engenheiro Irresponsável. Mas entretanto há outras teorias, que ocorreram no passado: a Câmara mandava calcetar e vinham Marcianos da Oposição pela madrugada e descalcetavam. Seria possível? Teoria de Conspiração ou não, o facto é que toda a manhã a cidade acordava esburacada. Sou mais pela primeira teoria dos três Marcianos.

Terça, 2/3

Que são buraquinhos na estrada face à falta de electricidade? Da estrada, podem tirar os paralelos todos, mas será pensável tirar a electricidade a uma pessoa um dia todo, todos os dias? Que Estado de Direito, se não posso processar ninguém pela comida que me estraga no frigorífico, com risco a cada vez de arrebentar o próprio frigorífico? As horas de trabalho que não faço em casa, como se existe homem com poder tanto que me diga que não posso trabalhar em casa? Quem processo por perda de conforto, perda de paciência, perda de paz interior? Mas quem se rala com o conforto e as horas de trabalho extra perdidos, quando morre gente de doença mais séria?